Pó enamorado

©CR

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Durante anos, o meu pai repetiu que, logo abaixo do proverbial “aqui jaz fulano”, a sua lápide haveria de ressalvar: “Contra a sua vontade”.

Acabaria por escolher a cremação, até porque detestava enterros, mas continuou a gostar de contar o que diria a lápide que sabia que não iria ter.

As suas cinzas foram depositadas no jardim do cemitério, numa manhã de Verão que nada teve de solene. Mesmo antes de sair de casa, decidi que queria que pelo menos uma pequena parte das cinzas fosse para um sítio de que ele gostava. Não sendo um sítio onde se possam depositar cinzas, não seria viável depor lá mais do que uma reduzida quantidade. Só tinha à mão um daqueles frascos para champô de levar em viagem e, como nunca tinha sido usado, achei que poderia servir. Read More

As cruzes

 

© Chema Madoz

© Chema Madoz

Creio que foi o Juan José Millás que escreveu que a zona lombar é um território mítico, não corresponde exactamente a um órgão ou osso, é antes uma terra de ninguém, de fronteiras incertas. Gente com dores de cabeça, de dentes, de cotovelo tem dores precisas, em sítios concretos, sem imaginação nenhuma. Nós, os que caímos pelas escadas abaixo em algum momento das nossas desastradas existências, sofremos uma dor numa “zona”, coisa sem valor científico, território vago e que suporta o castigo de asneiras diversas: más posturas, sonecas no sofá, demasiado peso nos sacos que carregamos.

Não é só uma dor, é um estado de alma, um tributo ao bicho antepassado que decidiu ser bípede. É uma dor filosófica, vá. Torna-se, por isso, insuportável que um Esteves sem metafísica chegue ao pé de nós e resuma tudo com um “Ah, doem-te as cruzes”.

É intolerável, decerto concordarão.

La cucaracha

© Everett Collection

© Everett Collection

Há coisas que uma pessoa não pode fazer em Espanha e uma delas é tomar café. A não ser, claro, que o café seja de marca portuguesa. Tenho, por isso, uma pequena lista de lugares onde sei que posso pedir um café sem riscos de maior e lanço mão dessa lista sempre que necessário. Na manhã de Carnaval, estava eu a tomar o pequeno-almoço num desses sítios já conhecidos, quando entra um grupo de mulheres vestidas de Thermomix. Eram quatro cinquentonas, descaradas, de risada sonora e língua afiada. A Thermomix, talvez não saibam, é uma instituição em Espanha, uma máquina liquidificadora e processadora de alimentos, dessas que fazem sopas, sumos de fruta, pão, soufflés,  queques fofos. As folionas traziam uns chapéus muito vistosos, com frutos, peixes, salsichas de plástico, e no peito uns botões com diferentes velocidades, mesmo a jeito para que os homens atrevidos lhes perguntassem se podiam dar ao botão. Podiam ser quatro “chicas Almodóvar”, ou pelo menos a isso aspiravam, embora os chapéus remetessem inevitavelmente para a “Pequena Notável” de Marco de Canaveses. Read More

Dia dos Namorados

© Paulo Abrantes

© Paulo Abrantes

Alto, bem encasacado, vozeirão, passos firmes, gestos elegantes, um homem habituado a que lhe façam caso. Anda de um lado para o outro no hall, impaciente, ausente, fora de si. Pega no telefone, procura um número, aguarda. Começa a falar, altíssimo.

– Sim, meu amor… Sim, estou aqui, no hotel…. Efectivamente… Quando vens buscar-me?… Compreendo… Sim, meu amor, compreendo… Espero-te aqui… Até já, meu amor, até já.

Enquanto fala, percorre o hall com passadas largas, gesticula com a mão livre, esboça um gesto de resignação. Desliga. Esperará, que remédio, esperará.

O funcionário da recepção evita olhar para ele. Os clientes não conseguem deixar de fazê-lo. Read More

Escada sem céu

Tive a infeliz ideia de visitar o Convento de San Estebán (Salamanca) sem câmara fotográfica. Fotografar com telemóvel foi o melhor que consegui.

Quem mandou construir a escada que dá acesso às celas dos frades apiedou-se desses homens. A pedra é fria e austera, o vento que corre à solta pelo claustro corta a pele, e as celas situam-se no piso de cima, o mais castigado pelo Inverno de Castela. A vida é severa, a carne recebe o castigo sem queixume, e até ao sonho se impõe ser casto.

Quem mandou construir a escada que dá acesso às celas dos frades encimou-a com a figura de Maria Madalena, luminosa e lânguida, rezando como quem conversa com um amante entre lençóis. É com ela que os olhos se cruzam, na subida para a cela fria, e dela não podem escapar, Madalena iluminada e calorosa como se portasse uma chama.

Quem mandou construir esta escada apiedou-se, deveras, dos frades ou também assim quis castigá-los?

Eu às vezes embarco em conversas banais

Aqui chegados, há muito mais disponibilidade e paciência para meter conversa ou deixar-se meter conversa com desconhecidos. Às vezes, é gente intelectualmente estimulante, ou pelo menos assim o parece, esta luz mortiça até nos favorece, no bar modernoso do copo de tinto ao fim da tarde. Vêm com um Malraux debaixo do braço, óculinhos de massa, eu é que já não tenho 20 anos, essas deixas já não colam. Outras vezes, é o velhote chato da rua de Cimo de Vila, que vai batendo a bengala na calçada, e espera que apareça um aborígene para protestar-lhe do carro estacionado em cima da passadeira.

– É tudo deles, já viu?

É tudo deles, dos gajos que tomam conta disto tudo, do dono do bar de alterne que emprega a moça corcunda – já viu? tadita da catraia, catraia é como quem diz, já tem uns 50 bem atestados – do dono do hostel, do turista espanhol tan borde. Conversar com desconhecidos, já me explicava o meu velhote, é um marco civilizacional, não somos bichos que andamos para aqui, e é uma maneira como outra qualquer de fazer amigos. Numa cidade como a minha, pequenita, acaba-se sempre a descobrir que o desconhecido é primo do amigo da patroa do vizinho do Nando. Lembras-te do Nando? Então não?! Read More

Um jogador a menos

Médium apanhada em flagrante a subir a mesa com o joelho. Sessão realizada em Paris, em 1950. Autor desconhecido.

Médium apanhada em flagrante a subir a mesa com o joelho. Sessão realizada em Paris, em 1950. Autor desconhecido.

J. D. Moufons, um distinto cavalheiro que conheço das noites de poker, foi convidado por Matilde M. para uma séance em casa dela. A Matilde não bastava ter uma casa semelhante a um museu, com todas as paredes e recantos pejados de quadros, antiguidades e de retratos de gente que Matilde não sabe quem foram mas nos quais reconheceu, ao encontrá-los em dispersos antiquários, traços reveladores de uma força de carácter, de uma nobreza que só podiam ser suas antepassadas. Matilde também adoptara hábitos caídos em desuso, como beber mazagrã e organizar sessões espíritas em sua casa, sempre à terça-feira, porque era o dia em que o marido, avesso a excentricidades, saía para o bowling.

Moufons não tinha interesse no oculto. Não desejava comunicar com falecidos, nunca perdera tempo com especulações sobre o Além, não ansiava por respostas porque simplesmente nunca tivera vontade de fazer perguntas. Mas Matilde era insistente, repetia-lhe que ele tinha absolutamente de ir, e como, depois daquele aborrecido incidente com a espingarda de chumbos, Moufons vira muitos dos seus amigos afastarem-se, não queria perder a pouca vida social que lhe restava: as noites de poker e as excentricidades de Matilde. Read More

O homem que mandou Deus passear

“Jonas e a baleia”, ilustração no “Jami’ al-tawarikh” (Pérsia, c. 1400)

“Jonas e a baleia”, ilustração no “Jami’ al-tawarikh” (Pérsia, c. 1400)

Jonas era um tipo ponderado, reflexivo, avesso a que lhe desordenassem os dias e ainda mais a receber ordens. Deus embirrou logo com ele. Ou não fosse Ele hábil a identificar os problemáticos, os que insistiam em pensar e duvidar e ver além. Jonas tinha de ser domado. E por isso, estando o homem posto em sossego, Deus foi ter com ele e mandou-o ir a Nínive, a cidade assíria do culto a Ishtar, deusa da fertilidade, do amor e do sexo. Vai lá e avisa-os de que o fim está próximo, diz-lhes que destruirei a cidade e todos os seus habitantes, ordena.

Jonas, que esperava a divina visita e adivinhava o desfecho de tal incumbência, correu para o porto mais próximo e apanhou o primeiro barco que saía, que por acaso ia para Társis, mas, sobretudo, não ia para Nínive. Read More

Post scriptum

©C.Romualdo - Praia da Boa Nova, Leça da Palmeira

©C.Romualdo – Praia da Boa Nova, Leça da Palmeira

No passeio de lá, apareceu de repente o meu pai. A minha cabeça sabia, e soube-o durante todo o tempo que a cena durou, que não podia ser o meu pai. As pessoas mortas não passam do lado de lá da rua, embora haja aquela história muito bela do Juan José Millás, de quando ele era pequeno e acreditava que quem morria ia viver para o bairro dos mortos, nos arredores da cidade. A minha cabeça sabia que não era possível, mas o meu coração acreditou, por instantes. E por isso bateu um pouco mais depressa. E as pernas, que sabem aquilo que a cabeça lhes diz, desta vez deixaram-se enganar pelo coração e tremeram. Em seguida, a cabeça recuperou o domínio sobre todos e lembrou que não, não pode ser, aquele homem, reparem bem, não pode ser ele e não é ele. É certo que o recorda um pouco, no cabelo, no casaco, no jeito de andar, mas nada mais. Aquele homem é um desconhecido. Não batemos, coração, mais depressa por um estranho. Nem trememos, pernas, por desconhecidos do outro lado da rua, que não nos perseguem nem ameaçam, nem sequer reparam em nós. Vamos lá recuperar o bom senso.

E assim foi, continuei caminho, com as pernas a tremer para nada e aquela sensação de haver sido um pouco pateta. Read More

Um minititanic

Heinrich Semiradzki (1883), “Enterro de navio de um chefe tribal Rus’, tal como descrito pelo viajante árabe Ahmad ubn Fadlan, que visitou o Rus´de Kiev, no século X.

Heinrich Semiradzki (1883), “Enterro de navio de um chefe tribal Rus’, tal como descrito pelo viajante árabe Ahmad ubn Fadlan, que visitou o Rus´de Kiev, no século X.

Foi o Adão quem me falou do Minititanic, e até mo mostrou, em certa tarde soalheira. Um barquito pequeno, arruinado, ancorado na margem do Douro. Um barco de quatro ou cinco metros com um nome imenso, apesar do (falso) prefixo. Se continua ali, encostado à margem, como se ainda tivesse futuro, é porque o dono, um velho pescador, não o abandona. Todos os dias à volta dele, a limpar-lhe as cagadelas das gaivotas, a consertar uma tábua, a fazer-lhe um remendo inútil, como todos os remendos que ainda se possam fazer naquela carcaça, e a amá-lo, a amá-lo como não sabemos se terá amado alguém de carne e osso, porque no barco despejou tudo o que foi, tudo o que fez, tudo o que dele ficará no mundo. O homem dirá ainda, a quem ainda o escutar, que um dia destes faz-se ao mar outra vez, que o barco ainda aguenta, que estão os dois rijos. E ouvirá risadas de resposta, ou só um assentimento amável, para quê contrariar um pobre homem?

Minititanic, tão pouco invencível como o outro, conseguiu pelo menos chegar à terra. Morrer em terra é morrer todos os dias, aos bocadinhos, mas também é ver o sol a pôr-se e outra vez a nascer. E pensar que sim, ainda se verá o próximo. Read More